Colonização judaica: tradição semita concentra-se no bairro Bom Fim, em Porto Alegre


Publicado por hagah em 08/04/2011


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Assim como os demais imigrantes, os judeus vieram para o Brasil em busca de terras e menos miséria. Porém, este povo tinha mais um motivo: a perseguição que sofriam em seus países de origem. Alguns judeus se instalaram em lotes coloniais, e aqueles que vieram, posteriormente, direto para as cidades, especialmente para Porto Alegre, mais precisamente no Bairro Bom Fim.

A história da imigração rural começou graças à iniciativa do Barão Maurício de Hirsch, francês de origem judaica que era banqueiro em Bruxelas. Preocupado com a situação dos judeus, Hirsch resolveu criar, em 1891, uma organização para a instalação de colônias agrícolas em diversos países, entre eles o Brasil, para as quais pudessem imigrar os judeus oprimidos da Europa. Assim, criou a Jewish Colonization Association (conhecida como JCA ou ICA).

Com esse objetivo foi adquirida, em 1903, uma área de 5.767 hectares em Santa Maria, a primeira colônia judaica do Rio Grande do Sul e do Brasil. Na nova terra, os imigrantes receberam lotes de 25 a 30 hectares, com uma residência, instrumentos agrícolas, duas juntas de bois, duas vacas, carroça, cavalo e sementes, a um preço de cerca de cinco contos de réis, a serem pagos em prazos de 10 a 15 anos.

Em 1909, a ICA adquiriu a fazenda Quatro Irmãos, de mais de 93 mil hectares, que ficava no então município de Passo Fundo (atualmente Erechim e Getúlio Vargas). Porém, a maioria dos colonos não permaneceu nesses lugares, mudando-se mais tarde para cidades próximas, como  Santa Maria, Erechim e Passo Fundo ou para Porto Alegre. O principal motivo para o êxodo foi o medo dos grupos de revolucionários e de tropas governamentais, que sugiram após o fim da Revolução de 1923, e que ficaram vagando pelo estado, ameaçando e assaltando a população. A colônia de Dois Irmãos foi invadida, e um colono foi assassinado. O outro motivo era a preocupação com a educação das crianças, pois nas colônias só havia ensino primário.

Por volta do final da década de 1920, os primeiros membros da comunidade judaica começaram a se instalar ao longo da Avenida Bom Fim. Até hoje, apesar da diversidade de moradores, o bairro permanece como símbolo da colonização judaica em Porto Alegre.

De acordo com a moradora, Raquel Szapszay Treiguer, que vive no Bom Fim desde que nasceu, há 65 anos, o bairro ainda consegue manter algumas características da época em que seus pais mudaram para o local. As sinagogas ainda reúnem os descendentes de judeus em seus eventos religiosos, algumas casas também mantêm a arquitetura da época, e, inclusive, algumas pessoas que vieram refugiadas ainda habitam os arredores.

Os pais de dona Raquel vieram da Polônia em meados da década de 1930, alguns anos depois que o tio dela se estabeleceu em Porto Alegre. A descendente conta que mora até hoje na casa que era de seus pais, na rua Fernandes Vieira. Segundo ela, o pai era um homem muito fechado e não costumava falar das dificuldades que enfrentou antes de vir para o Brasil, já a mãe contava algumas histórias, mas nada muito aprofundado.

Dona Raquel ainda recorda que depois que os pais vieram para o Brasil, perderam totalmente o contato com a família que ficou na Polônia. “Teve uma vez que minha mãe visitou alguns primos que estavam no Estados Unidos, mas depois disso ela nunca mais teve notícias de nenhum parente”, conta. Na época, a comunicação era muito difícil, ainda mais em se tratando de países tão distantes. Era comum as famílias se dispersarem e nunca mais terem contato.

O Bom Fim é o porto seguro de dona Raquel. Ela acompanhou todo o desenvolvimento do lugar e todas as mudanças que por ali ocorreram. “Me recordo de cada casinha, que foram pouco a pouco sendo substituidas por prédios, onde bem mais pessoas podem morar”, lembra. “Costumo brincar que se vou ao mercado, que fica bem pertinho daqui, preciso tomar um táxi, pois se vou a pé paro em cada esquina para conversar com os vizinhos e amigos. Conheço todo mundo, acompanhei o crescimento de diversas gerações”, destaca. Dona Raquel também conta que quando está fora do bairro se sente perdida, ali ela conhece cada pedacinho da calçada, cada árvore e cada pessoa.

Os descendentes de judeus costumam se reunir nas comemorações da cultura judaica, seja nas sinagogas, nas casas ou no clube. Dona Raquel participa, junto de outras amigas, de uma das entidades femininas judaicas, onde realiza trabalho vonluntário e promove jantares beneficientes para arrecadar fundos para instituições de caridade. “Todos os judeus por aqui formam uma grande família, na qual todos se ajudam”, afirma.

A culinária é um dos pontos mais marcantes da cultura, as receitas são passadas de geração para geração, e com dona Raquel não foi diferente. “Tudo o que aprendi com a minha mãe procurei passar para os meus filhos”, conta ela. Apaixonada por cozinhar, ela conta que no bairro há diversas lojinhas especializadas que vendem produtos da culinária tradicional. “As vezes até nos mercados comuns da região encontramos, pelo fato de terem muito judeus por aqui”, ressalta.

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